"Quando eu nasci nunca tinha visti nada.
Só um escuro, muito escuro na barriga da minha mãe.
Quando eu nasci nunca tinha visto o sol, nem uma flor, nem uma cara.
Eu não conhecia ninguém, nem ninguém me conhecia a mim.
Quando eu nasci não sabia o que era o mar, nem que existiam florestas, nem que havia um mundo com montanhas e praias.
Quando eu nasci nunca tinha visto um passarinho, nem sabia que havia animais com penas, outros com escamas e outros com pêlos, como o meu cão.
Quando eu nasci nunca tinha brincado com pedras, nunca tinha mexido na terra, nem feito túneis na areia.
As minhas mãos nunca tinham tocado em nada, só uma na outra.
Quando eu nasci nem sonhava que havia céu e que o céu mudava de cor e que as nuvens eram tão bonitas.
Quando eu nasci era tudo novo, tudo por estrear.
Os meus olhos ficaram espantados quando descobriram que todas as coisas eram feitas de uma cor.
A cor encarnada das cerejas.
A cor verde dos jardins.
A cor azul que pinta o fundo do mar.
A cor amarela do meu chapéu.
A cor castanha de alguns passarinhos.
A cor branca das nuvens.
A cor preta quando se apaga a luz.
A minha boca ficou espantada quando descobriu o que era capaz:
De chorar muit alto.
De rir com vontade.
De chamar as coisas pelo seu nome.
De dizer palavras feias e bonitas.
De dar beijinhos e deitar a língua de fora.
De provar leite, sopa, iogurtes e frutas.
De saborear todos os sabores.
O meu nariz também ficou surpreendido...
Logo no dia em que eu nasci, espantou-se com a força com qu epuxava o ar para dentro do meu corpo.
A partir de então, nunca mais parou.
A toda a hora, a todo o segundo, traz-me ar fresquinho e cheiros novos.
Há uns de que eu gosto muito:
O cheiro do colo da minha avó.
O cheiro das papas de manhã.
O cheiro das tintas da minha escola.
O cheiro do meu champô.
O cheiro das férias quando chega o Verão.
Lá dentro da barriga da minha mãe, tinham-me chegado algumas vozes, o som de alguns instrumentos.
Mas eu podia lá imaginar...
Que as ondas falam de cá para lá.
Que as árvores, quando o vento canta, canta também.
Que é tão bom quando alguém nos fala baixinho ao ouvido.
Que uma folha quando cai ao chão faz um estrondo.
E que uma folha quando pousa faz só: plic.
Quando eu nasci as minha mãos começaram logo a perguntar:
Que é isto? Quem és tu?
E desde então nunca mais pararam, sempre a descobrir e a aprender, a abrir e fechar portas.
Com elas já aprendi que há coisas macias e outras que picam.
Que há coisas quentes e outras frias.
Que há coisas que se podem desmanchar e que têm lá dentro outras coisas.
E que essas coisas, por sua vez, podem continuar a desmanchar-se vezes e vezes sem fim...
Com as minhas mãos chego a todos os lugares e, quando não consigo lá chegar, ponho-me em biquinhos dos pés.
Poruqe os meus pés, quando eu nasci, ainda não sabiam andar.
Mas aprenderam depressa e desde então levam-me a toda a parte, fazem-me correr e dançar e dar saltos no colchão.
Quando eu nasci não sabia quase nada.
Agora, pelo menos, uma coisa já aprendi.
Ainda há um mundo inteiro por conhecer, milhões e milhões de coisas e lugares onde as minhas mãos nunca chegaram.
Milhões e milhões de respostas escondidas, milhões e milhões de cores que eu nunca vi.
E de cheiros e de sons e de sabores.
Mas uma coisa também é certa.
Todos os dias descubro sempre mais um bocadinho.
E isso é a coisa mais fantástica que há!"

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